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Arthur Ankerkrone - 24/02/2010
A nível de pancadas esparsas

Há na televisão, e no jornalismo de um modo geral, uma série de vícios de linguagem que nos chegam todos os dias, e alguns estão tão arraigados no nosso subconsciente de que já nem levamos em conta o quão estranhos e muitas vezes engraçados que estes são.

Comecei a prestar atenção nisto no dia em que uma repórter me chamou a atenção a respeito de uma expressão utilizada frequentemente nos boletins de previsão do tempo: “sujeito a pancadas esparsas em pontos isolados no decorrer do período”. Tá certo, você já ouviu esta expressão uma centena de vezes, no mínimo. Mas já parou pra pensar nela? O que vem a ser uma “pancada esparsa”? E onde ficam os tais “pontos isolados”? É uma informação com sentido tão vago, que mais um pouco deixa de ter sentido.

E as unidades de medida preferidas pelos jornalistas? O “campo de futebol” é uma delas… “a área desmatada neste semestre na Amazônia é correspondente a cem campos de futebol”. Como se soubéssemos com facilidade qual a medida exata de um campo de futebol. E aí fica a pergunta? É só o campo? Ou corresponde ao estádio? Entram as arquibancadas? Há alguns jornalistas que são mais específicos… usam “a área alagada é tão grande como dez Maracanãs”. Contam as calçadas também?

Há outras unidades de medida nem tão esportivas, mas não menos bizarras… o ônibus é uma delas. “Tal coisa tem o tamanho de setenta e três ônibus enfileirados”; Rio e São Paulo, também, fazem parte de unidades de medidas… “A distância seria comparável a ir do Rio a São Paulo cerca de trinta vezes”… como é? É pela Dutra? Pela ponte aérea? Pela Rio-Santos? Ou pelo mar com a parte terrestre entre o litoral e São Paulo pela estrada? E, nesse caso, por qual estrada?

Já que falamos de carros, há outra expressão fascinante nos boletins sobre trânsito: “morosidade”. Não há lentidão, tráfego intenso ou vagareza que seja mais sofisticado do que “morosidade”. “O trânsito na Avenida Brasil já apresenta grande morosidade…”.

E o “transtorno”? É outro tema recorrente, principalmente no noticiário sobre as chuvas, coisa que aconteceu muito em São Paulo nos últimos tempos… lá pela hora do almoço, vem o telejornal dizendo que “a chuva poderá causar transtornos no final da tarde”. Transtornos??? Esse é um novo nome para alagamento, destruição, caos, devastação? E certamente, causa morosidade no trânsito!

Uma outra coisa muito legal é a locução padrão de apuração do concurso de escola de samba. É sempre igual, há vários anos: “Quesito harmonia… Grêmio Recreativo Unidos do Barracão Dourado… nota déééééééz”. Aquela empostação toda, aquela nota longa e grave.

Na publicidade, em TV, temos outra pérola. É o “por apenas”. É uma expressão perigosa, no mínimo. noventa por cento das ofertas com “por apenas” são certamente mais caras do que o normal. Os outros dez por cento realmente funcionam.

E outra bizarrice… essa, uma das minhas preferidas… os quadros onde se falam de vinhos… é lindo ouvir os enólogos dizendo que em tal vinho “há um sabor pronunciado de terra”… e eu lá quero sentir gosto de barro? O mais bacana que ouvi até hoje, e é sério, foi um enólogo dizer que tal vinho tinha um sabor “de óleo diesel”. Tem louco pra tudo!

Um vício que está sendo corrigido agora é o tal “risco de vida”, trocado em quase todos os lugares por “risco de morte”. Afinal, se o cidadão corria “risco de vida”, é que ele, no mínimo, iria sobreviver. Ainda é uma pérola do jornalismo policial. Nesse também há o jargão “segundo a polícia militar” para contagem de qualquer coisa que envolva muita gente. Faz sentido, mas é curioso. Já pensou se começam a usar outras instituições para estas aferições? “Segundo a polícia militar, a manifestação contou com seiscentas mil pessoas. Segundo a CNBB, quinhentas e cinquenta mil, e segundo a Organização Nacional de Observadores de Sabiá Laranjeira, foram cerca de trinta e cinco pessoas”.

Essa é outra maravilhosa. “Cerca de”. É usada para colocar uma quantidade numérica qualquer de maneira aproximada, jamais exata. E não é raro ouvir “Foram cerca de oitenta e duas pessoas”!

Mas a hors-concours absoluta ainda reina com a expressão “a nível de”, nascida na década de 1980. “A nível de dialética”, “a nível de projeção econômica”, “a nível de produção sucro-alcoleira”. O certo é “em nível”. O “a nível de” não existe. O certo é “em nível econômico”, jamais “a nível de economia”. A partir do momento em que esta expressão sumir, já será um grande passo.

Fonte: http://blog.francfort.com.br/ Comente esta matéria 

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